domingo, 6 de abril de 2008

Segundo Relato - Viagem Insolita (Again)


Resolvi comprá-la e comprei.

Sei o que muitos estão pensando, assim como recebi muitas respostas com os mais variados adjetivos, associações da minha personalidade com animais eqüinos, conselhos, orações, macumbas e por aí vai. Entendo os pontos de vista e por diversas vezes até mesmo concordo. Também não vou desfiar o rosário justificando quais os "porquês" e os poréns. Digamos apenas que nesse caso eu uni o útil ao agradável.

Nem vou tentar explicar sobre o lado prático, ou útil de se comprar uma moto a 1400 Km de distância de casa, vir pilotando, chegar praticamente destituído de qualquer faculdade mental ou condição física. Ainda mais quando se tem no currículo experiências como aquela outra viagem com a Meretriz...

Mas o lado agradável... Imagine-se fazendo a coisa que lhe traz mais adrenalina. Atenção, não disse a que lhe dá mais prazer. Sei muito bem que há muitas outras coisas melhores do que andar de moto! Imagine-se sentindo essa adrenalina durante horas seguidas, como num salto de bungee jump que durasse cinco ou seis horas, por exemplo. Ver o mundo num ângulo de 360°, a paisagem mudar totalmente em relevo e vegetação, as relações sociais meio atrapalhadas entre os motoristas e a curiosidade geral das pessoas quando vêem um trator de duas rodas, com bolsas amarradas em todos os lugares possíveis, pilotado por um ser vestido como um ET de Varginha sujo de óleo, graxa e poeira de asfalto.

Mas deixemos de poesia barata, por que eu sei que o que vocês querem mesmo é dar boas risadas da minha cara, embora eu não possa proporcionar, desta vez, tantas situações cômicas quanto a da minha primeira viagem. Graças ao bom Deus!

Tudo começou no final de semana após o carnaval. resolvi que compraria uma moto e tinha as minhas razões. Numa conversa com meu primo no MSN, soube de uma Suzuki DR-800S, que um amigo dele estava vendendo em Salvador. Olhei o preço e estava abaixo da tabela, então eu disse a meu primo que se o homem aceitasse uma quantia X, abaixo ainda da que ele pedia, eu ia buscar a moto na semana seguinte, nos meus últimos dias de férias. Continuei conversando com outras pessoas até que veio do meu primo: "Tô ligando pra ele.". "Ele aceitou.".

Putz! Não era pra levar tão a sério! Conversamos mais um bocadinho e foi nesse momento que pesei a relação UTILIDADE x AGRADABILIDADE.

Combinamos tudo e comprei as passagens já para a segunda-feira à noite. Iria de avião e voltaria de moto na quarta.

Talvez o vôo tenha sido a parte mais desagradável da viagem. O vôo mesmo foi tranqüilo. A vista das luzes de Salvador delimitando o limite entre a orla e o mar é muito bonita, e além disso fui conversando com uma senhora e seu filho que estavam de férias e iriam pra Ilhéus em seguida. O problema é que achei que o piloto do avião tinha uma inegável cara de picareta dos anos 70, e isso me preocupou por que, picareta que ele era, podia ter enchido a cara de wisky antes do vôo e isso colocava a minha vida em alto risco. Além disso ele fez o pouso a 800 mil quilômetros por hora e me lembrei da tragédia acontecida em São Paulo, agarradinho na minha poltrona.

Desci do avião, me encontrei com meu primo Gabiroba, sua esposa e o Adriano. Seguimos de carro até a casa do cabra, dei-lhe os cheques, recebi as chaves e as instruções, a moto recebeu o último abraço de seu antigo dono, montei na bichinha e partimos em direção a Catú. Eram aproximadamente 0:00h. Cem quilômetros depois, já estava repousando, satisfeito com a compra e ansioso pra voltar pra casa em cima dela.

Os dias que seguiram em Catú, de terça até quarta, foram tomados acompanhando meu primo em seu ofício, curtindo um churrasquinho na sacada de sua casa, e até curtindo uma praiazinha em plena quarta-feira de tarde. Na noite de quarta, comemos uma (várias) pizzas e fui dormir, por que sabia que o que me aguardava não era brincadeira.

Quinta feira, às 7:00h daqui (na Bahia não tem horário de verão, portando lá eram seis da matina), parti e daí por diante foi só alegria!

Ah! As curvas... Retas são muito sem graça, sisudas, diretas... As curvas são hipnotizantes, mais desafiadoras para a esquerda do que para a direita no meu caso. Uma pessoa que realmente gosta de pilotar ou dirigir não pode gostar de uma reta. Gosta da reta quem quer chegar logo. Na reta basta acelerar e você chega do outro lado! Na curva tem que se calcular velocidade, inclinação, tangência, frenagem e aceleração, e ainda assim, correr o risco de se estrepar todinho caso erre um cálculo.

E foi depois de muito tempo que elas realmente chegaram, as curvas. E foi o primeiro grande momento da jornada. O segundo foi quando eu parei para abastecer e descobri que: 1) a moto, que pelo manual deveria consumir 20Km/L, estava gastando o dobro! Ora, pra beber desse jeito eu teria comprado um carro! 2) Além disso havia uma verdadeira lambreca no motor, causada por um vazamento de óleo, não sei de onde. Eu havia andado aproximadamente 300Km e decidi chegar até Vitória da Conquista para ver o que estava acontecendo.

Chegando lá, fui procurar uma oficina. Em pleno horário de almoço, na Bahia, isso se torna missão um pouco difícil. O comércio estava quase todo fechado. Achei uma, mas o mecânico não poderia olhar minha moto no mesmo. Em outra, fiquei aguardando por volta de uma hora até que o mecânico NÃO apareceu.

É aí que entra o companheirismo no motociclismo. Gabiroba, sabendo da minha situação, ligou para um amigo que avisou a outro amigo, mecânico da Suzuki de Vitória da Conquista, que eu iri lá para dar uma olhada na moto. Porém, este cabra, que inclusive foi extremamente gente boa, muito educadamente me aconselhou a colocar a moto numa cegonha e ir de ônibus, pois ali eu não acharia nenhuma peça para ela. O jeito seria voltar e ver se o outro já tinha chegado do almoço. Fui lá, e o Jackson, dono da oficina me atendeu muito bem. Sujeito bonachão, viciado em fanta resolveu meu problema do carburador, e constatou que o vazamento de óleo era provocado apenas pelo excesso, porém teve que praticamente desmontar a moto para ter acesso ao carburador. E isso demorou pra cara***.

Saí de Vitória da Conquista, após esperar cerca de cinco horas e beber uns 7 litros de fanta. Decidi que pilotaria a moto um pouco a noite afim de chegar até o trevo, no mesmo lugar onde havia dormido na viagem do ano passado. Isso era 19:30h, horário daqui.

Ah! As curvas.... Eu não teria escrito toda aquela balela sobre as curvas se elas tivessem aparecido depois desse trecho e se agora eu não fosse obrigado a passar por elas à noite. Meus Deus, que roia, que medo e que arrependimento de não ter dormido em Vitória mesmo. Foi nessa hora que tive certeza que eu era mesmo um jumento, como alguns tinham me falado.

E por falar em noite, incrível o que aconteceu quando o último raio de luz solar se foi. Os insetos que vez ou outra se estrepavam contra a viseira do meu capacete, multiplicaram-se em numero e tamanho, em proporções assustadoras. O impacto desses bichos que surgiram agora contra o capacete era impressionante e, como eram muitos e muitos, a todo instante eu tinha que limpar a viseira com a manga da jaqueta.

Mas cheguei ao trevo bem, são e salvo, e o que ví assim que cheguei ao Hotel Cariri, foi como a própria visão do inferno, que fez o meu sangue gelar. Uma Parati azul metálico claro. O mesmo carro em que a meretriz havia despencado um ano antes, me enchendo de tristeza e prejuízos. Eu não acreditava na cena e por via das dúvidas estacionei o mais longe que pude. Se a moto fosse cair agora, que fosse no chão!

Confirmei com o atendente do hotel que a maldita Parati era realmente a maledita do ano passdo. Ele se lembrou de mim e do episódio, e ainda riu da minha cara, me chamando de azarado. Mas não encontrei com o dono, ainda bem.

Saí às 6:00 da manhã do outro dia, tranquilo, e agora a moto consumia próximo dos 20 Km/L que eu tanto queria. Quando eu passei pelo lugar onde a moto do Bin havia furado o pneu no ano passado, e onde eu descobri que a Meretriz tinha ficado sem placa, comecei, inconscientemente, a olhar pro chão, procurando a placa danadinha fujona pra levar de recordação. Chegando a Montes Claros não resisti e parei no posto onde achava que a tinha perdido e perguntei: "Por acaso vocês não acharam uma placa de moto aí não?" "Ano passado eu passei por aqui e acho que ela caiu nesse posto.".

Nem preciso falar que fui tratado por doido, mas tudo bem. Eles não sabiam da outra história...

Cheguei em Curvelo no início da tarde de sexta-feira, e fui raptado pelos amigos para comemorar. Acabei chegando às 23:00h na casa do meu tio, alcoolizado, e bati o maior papo cabeça com ele durante alguns minutos. Meu tio tem mesmo muito saco pra ficar me aturando lá....

No sábado, vim embora, sentindo dores de parto, só que nas mãos. Passei por Sete-Lagoas pra rever um brother, e terminei de chegar em casa lá pelas 17:00h. O último fato relevante dessa viagem é que, na noite de sábado, após dormir alguns minutos e relaxar, eu parecia um zumbi. Parecia que alguém tinha sugado o meu cérebro e eu não conseguia pensar em nada! Ia até a geladeira, abria e olhava vagamente pra dentro dela. Fechava. Sentava no sofá, ligava a TV e ia novamente abrir a geladeira para tornar a fechá-la e em seguida subir até o meu quarto e ver que não tinha nada que eu quisesse ali. Descia, desligava a televisão e ligava-a logo em seguida. Este ciclo se repetiu mais ou menos assim por quase toda a noite.

No domingo, enchi a pança de cerveja e agora estou aqui.

Não vou encerrar poeticamente, dizendo o lado maravilhoso de ter feito essa viagem. Foi perigoso, doeu pra cacete, passei roia e fiquei todo imundo. Mas fui infectado por essa doença que é gostar de moto e nada posso fazer, a não ser outras viagens e contar outras histórias.

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